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Caixa Preta
Nos cinemas: Monster - Desejo Assassino

Monster - Desejo Assassino (Monster/2003) Direção: Patty Jenkins • com: Charlize Theron (Aileen), Christina Ricci (Selby), etc.
Muito mais do que um filme sobre assassinato em série, "Monster - Desejo Assassino", que estreou no último fim de semana, é uma história de amor sobre pessoas sem lugar na sociedade: a prostituta de beira de estrada Aileen (Charlize Theron num papel corajoso e de transformação física absurda) e a jovem homossexual Selby (Christina Ricci).
Enquanto o tema é de inegável interesse, como são boa parte das histórias sobre serial killers e gente renegada, o roteiro toma partido das personagens marginalizadas e arrisca-se a validar algumas de suas atitudes. Seja como for, o filme suscita reflexões sobre a intolerância, a dificuldade de um indíviduo integrar-se à sociedade e o sexo como força que move o mundo. Para realçar essas questões, a infância de Aileen - ou simplesmente Lee - mereceria maior atenção do que o breve flashback com narração em off. A deterioração da instituição "família" e sua dificuldade em tratar de assuntos como homossexualismo e abuso sexual, é responsável por boa parte do que o espectador será exposto durante o filme, daí a importância em mostrar esse período com mais cuidado. "Monster" tem algum clima de "road movie", sugerido até pelo poster promocional, e sua ação é registrada em hotéis de segunda classe, acostamentos de estrada e um bar de motoqueiros. São os lugares onde encontramos os americanos menos privilegiados pela prosperidade econômica do país.
Lee, então à beira do suícidio, conhece a confusa e carente Selby num bar gay e vê na garota uma razão para viver. Elas não têm dinheiro ou amigos, uma é feia e masculinizada, a outra é jovem e ingênua, mas ainda assim elas se arriscam num tipo de amor marginal que tem tudo para sucumbir à dureza do mundo real. A relação entre Lee e Selby ilustra bem a busca pelo sonho americano. Não importa que o casal mostrado na tela seja tão incomum: todos, no fim das contas, estão atrás de conforto, uma casa na praia e um carrão na garagem. Numa sociedade competitiva e tão pouco tolerante como a norteamericana, é difícil imaginar que gente como Aileen e Selby pudesse "dar certo".
Lee não consegue um emprego normal porque não tem as aptidões mínimas para o mercado de trabalho e Selby, que pretende ter seu sustento provido pela parceira, chora como uma menina mimada que quer conforto e algumas regalias.
Numa história de amor tão impossível, é interessante observar a relação de interdependência que se cria entre as mulheres: Lee precisa de Selby para continuar vivendo, e Selby precisa da liberdade e do bem-estar que Lee pode (ou deve) lhe propiciar. Entre platéias homossexuais, é possível que "Monster" ganhe outras nuances e significados.
Ainda que o roteiro escorregue ao tentar justificar os crimes praticados por Aileen, o filme não tem uma visão tão maniqueísta de seus personagens. A maioria dos homens que recorre aos serviços da prostituta é desprezível, mas há exceções. A família de Selby não compreende sua homossexualidade, mas uma tia, religiosa e conversadora, acoberta sua louca aventura. É pouco para termos esperança na essência humana ou em algum novo tipo de organização social, mas o suficiente para "Monster" não cair na vala comum e separar seus personagens, de forma simplória, entre bons e maus.
Dois outros filmes sobre intolerância e amores marginais vêm imediatamente à cabeça depois de ver a história de Aileen Wuornos contada na telona: "Plata Quemada" (2000) e "Meninos Não Choram" (1999). O primeiro é um thriller argentino, baseado em fatos reais, sobre casal de assaltantes homossexuais que se esconde no Uruguai após roubar um banco e o segundo, um aclamado drama sobre a violência sofrida por uma jovem gay (Hilary Swank) em cidade do interior americano. Curiosamente, Hilary e Charlize Theron terminaram premiadas com Oscars por suas interpretações fortes e extremamente corajosas.
Se o cinema tem algum poder transformador, esses filmes e seus protagonistas prestaram enorme serviço para enxergarmos nossas diferenças e entendermos algumas distorções do mundo moderno.

Escrito por Mr Eddy às 14h02
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